O brasileiro está
normalmente acostumado com mentiras, mesmo sendo provável que não saiba. Aprendeu
que os índios se amavam antes da chegada dos portugueses, que a feijoada é de
origem brasileira, que Santos Dumont inventou o avião, que a Princesa Isabel
salvou a pátria dos negros, que o Paraguai se tornaria potência mundial se não
fosse a guerra e tantos outros fatos que tendem a esconder os fatos históricos
como eles realmente aconteceram. Contudo, a modalidade da mentira é
representada hoje através da classe política, principalmente quando se trata de
abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, ou CPI.
Após a explosão de
denúncias ligando diversos políticos e instituições ao contraventor do jogo
ilegal, Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, a começar por
Demóstenes Torres, o qual parece ser apenas o ponto de largada do circuito
cachoeira nas esplanadas do poder, tornou-se insustentável perante a opinião
pública a abertura de uma CPI.
Acontece que antes
mesmo de sua abertura, a CPI já é alvo de tentativas obscuras de se impedir um
trabalho amplo e profundo. Após uma agitação há alguns dias em prol de sua
articulação, os “ânimos” se acalmaram. Oposição acusa o PT de querer com isso
abafar o mensalão, enquanto os petistas vêm cada vez mais ligações de Cachoeira
com um dos principais líderes tucanos, Marconi Perillo.
Em meio ao fogo
cruzado, Dilma Rousseff sabe que como toda CPI, essa, mais do que qualquer
outra, não terá final ensaiando, podendo atingir seu governo. Ao contrário do
mensalão, o esquema de Cachoeira não envolve grupos interessados em manter o
poder, mas visam à satisfação de interesses privados, ou melhor, satisfação de bolsos
privados. Mesmo sem a divulgação do conteúdo da operação Monte Carlo, que
indicou o envolvimento de Demóstenes com Cachoeira, sabe-se que as relações do
contraventor atingem todos os partidos.
Relações consideradas
comuns entre políticos e realizadas há décadas em nome de financiamento de
campanhas poderá eclodir no maior escândalo de corrupção da história política do
Brasil. Por trás de articulações de Cachoeira estão escondidos esquemas e mais
esquemas de desvio de dinheiro público e direcionamento de decisões nacionais. Entretanto,
prevendo suas consequências, o PMDB, coordenado por sua tropa de choque, Romero
Jucá, Renan Calheiros e Valdir Raupp, pretende controlar (entenda-se blindar) a
CPI, o que deve custar caro a presidente Dilma, e aos bolsos dos contribuintes,
é claro.
O fato é que os
brasileiros não podem engolir mais essa mentira. O caso Cachoeira trata-se de
uma vergonha nacional e reúne práticas políticas que, mesmo parecendo utópico,
devem ser eliminadas. A CPI não interessa ao PT para abafar o mensalão ou ao
PSDB para ligar Agnelo Queiroz ao governo Lula. A CPI interessa ao povo
brasileiro para esclarecer fatos. É o momento de engrossar o coro contra a
corrupção e passar o Brasil a limpo. Caso contrário, muitos serão descobertos,
porém, nenhum será punido. Quem não entender, lembre-se novamente do mensalão.
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