Carlinhos Cachoeira não
é apenas um contraventor comandante do jogo ilegal no país e empresário “bem
sucedido”. De acordo com as escutas da Polícia Federal, Cachoeira comporta-se como
um excepcional chefe de reportagem ou ainda um exímio repórter investigativo. Pelo
menos é assim que ele aparece em relações com a Revista Veja.
A revista Carta Capital
desta semana foi corajosa ao condenar as práticas de sua concorrente e criticar
mais ainda o modelo instituído no país o qual questionar as posturas dos
veículos de comunicação é atentado à chamada liberdade de imprensa ou ainda
tentativa de censura.
Como vem evidenciando
as gravações da PF, Carlinhos Cachoeira utilizou-se da revista Veja, que por
sua vez colocou sua poderosa estrutura a disposição dos interesses do
contraventor. Já há algum tempo, se não desde sua fundação, a revista Veja
atropela princípios do bom jornalismo e atua de maneira a criar uma realidade,
ao invés de evidenciar uma, que seria teoricamente seu papel.
No livro Padrões de
manipulação na grande imprensa, Perseu Abramo, ainda na década de 1980, relata
perfeitamente a realidade dos grandes veículos no país, em especial a revista
Veja. Atuando como instituição política, a referida revista, por meio de seu
diretor na sucursal de Brasília, Policarpo Junior, acatou os desejos do grupo
liderado por Carlinhos Cachoeira e produziu diversas reportagens e edições voltadas
para influenciar negociatas do grupo. Para se ter uma ideia, a edição que
denunciou o escândalos nos Transportes em junho passado não foi um serviço
democrático da publicação para a nação, mas sim uma forma de pressionar os
dirigentes do ministério e preservar os interesses da construtora Delta, ligada
a Cachoeira.
Esse mecanismo foi
utilizado em pelo menos outras cinco capas da revista recentemente,
excluindo-se reportagens internas e notas. Em gravações, Cachoeira ordena a
Policarpo a publicação de uma nota na publicação, sendo imediatamente acatado.
Outra tentativa da revista, e até certo ponto bem sucedida, foi à transformação
do Senador Demóstenes Torres em paladino da ética, a pedido, é claro, de
Cachoeira. A intenção do bicheiro era fazer de Torres ministro do Supremo
Tribunal Federal (imagina que dupla não daria com Gilmar Mendes) e para isso a
revista publicara com frequência reportagens pregando a postura correta e
ilibada do senador, mesmo sabendo de suas relações nada éticas com Carlinhos.
Pior do que a postura
assumida pela revista, que evidentemente consciente em péssima prática
jornalística, é a blindagem realizada pelos empresários do setor para que o
assunto não seja alvo de investigação na CPMI. Como colocou o professor de
ética jornalística da UFSC, Rogério Christofoletti, a relação estabelecida
entre fonte manipuladora do jornalista é algo que “transgrede uma zona
delicada”. Assim, o jornalismo hoje praticado pela Veja resume-se a um
desserviço a sociedade e uma importante ferramenta para preservar os interesses
econômicos dos grupos aliados.
Enquanto no Brasil
questionar essas posturas é estar alinhado as fileiras radicais do PT e
defender o Zé Dirceu, como coloca vergonhosamente o editorial do O Globo, que
saiu em defesa de Veja, no Reino Unido, Rupert Murdoch, dono de um dos maiores impérios de mídia
do mundo que fatura perto de US$ 30 bilhões/ano é acusado de enganar o
parlamento, já prestou depoimentos na CPI e pode ser duramente punido pela
atitudes assumidas por seus veículos. Como perfeitamente colocou Mino Carta,
Roberto Civita é um de nossos Murdoch, com uma diferença: se apoia no
conservadorismo e na manipulação generalizada para sair mais uma vez limpo, sem
ter que prestar satisfações para quem quer que seja a ainda afirmar que
contribui para o processo democrático do país.
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