domingo, 8 de maio de 2011

No Dia da Vitória, historiador Derek Vertino fala de sua obra “Da Glória do Esquecimento” em entrevista exclusiva para o Blog do Henrique Cézar

Autor Derek
            Um conflito militar global que durou cerca de seis anos e marcou toda a humanidade, definindo as relações que hoje sustem o mundo. A Segunda Guerra Mundial envolveu a maioria das nações do mundo e, organizada em Aliados e Eixo, foi a guerra mais abrangente da história, deixando 70 milhões de mortos.       
            O que Socorro tem a ver com tudo isso? É o que o historiador Derek Destito Vertino, 22 anos, licenciado em História e pós-graduando em História Militar, nos conta em seu livro “Da Glória ao Esquecimento: Os socorrenses na segunda guerra – Resgatando a memória da cidade”. Nele, Derek, além de contextualizar o cenário de guerra, destaca a participação dos socorrenses na Força Expedicionária Brasileira – FEB, responsável pelos brasileiros que foram, literalmente, para luta.   
            Aproveitando o dia 8 de maio, Dia da Vitória, quando há exatos 66 anos o exército alemão rendia-se e colocava um ponto final na Segunda Guerra Mundial na Europa, o Blog do Henrique Cézar, com exclusividade, trás uma entrevista com Derek abordando desde o início da ideia para a produção do livro como a importância da participação dos socorrenses em um dos mais ilustres momentos da história da humanidade, se não o maior. Confira a seguir a entrevista na íntegra do historiador ao Blog.

            Blog: Derek, você é graduado em história e realiza pós-graduação em História Militar. Como surgiu o interesse por essa área da história (militar) e consequentemente como se deu a ideia de realizar esse trabalho em homenagem aos socorrenses que participaram da 2ª Guerra Mundial?     
            Derek: Sempre tive facilidade com o assunto na época de colégio e lia artigos em revistas, livros relacionados, filmes e documentários. Em 2007 passei a freqüentar e participar ativamente da comunidade “FEB – O Brasil na Guerra”, no Orkut. Em pouco tempo fui convidado para ser o moderador, de modo geral, organizando a comunidade (apagando propagandas de outros assuntos, respondendo dúvidas e desenvolvendo assuntos novos).       
            No mesmo período, elaborei um projeto para a construção de um monumento da Força Expedicionária Brasileira em Socorro/SP, destacando a importância de registrar os nomes dos heróis em algum ponto de destaque na cidade. O processo do projeto foi o seguinte: realizei uma pequena pesquisa, entrei em contato com familiares dos veteranos, digitalizei fotos, registrei informações biográficas e poucos documentos ainda arquivados.           
            Recebi elogios e apoio de políticos e do meio privado, mas infelizmente não deram uma previsão clara de quando o projeto sairia do papel, foi aí que resolvi publicá-lo. Assim, ficaria no conhecimento de um maior número de cidadãos que, de alguma forma, poderiam colaborar ou apresentar novos contatos.           
            Sobre a versão publicada em livro, adicionei mais informações, fotos e curiosidades, dando ênfase sobre a importância do resgate da memória e da criação de identidade, para que, principalmente, os jovens da cidade tenham orgulho de representantes socorrenses no maior conflito armado da História. Jovens como eles, na década de 1940, com aproximadamente 20 anos de idade, saíram da lavoura ou pequeno comércio para uma guerra moderna, enfrentando o inverno Italiano e o experiente combatente alemão.

            Blog: O livro não finaliza seu trabalho pelo reconhecimento de nossos pracinhas. No que consiste o projeto do Monumental, como funcionaria, qual o respaldo encontrou nas autoridades e qual o atual estágio do projeto?     
            Derek: Primeiramente, os nossos heróis são: Thomas Marcelino Borim (CPP1 do 6º Regimento), Benedito Vaz de Lima e Luiz Granconato (cozinheiros do 6º Regimento de Infantaria), e Ramiro Zucato (8º Regimento de Artilharia Montada da Defesa do Litoral). Apresentei o projeto para alguns vereadores da cidade na época, mas apenas o Luciano Taniguchi demonstrou interesse em levar o trabalho para frente. Na mesma época tentei conseguir outros aliados, sem sucesso. Todos apoiaram, mas não retornavam com alguma novidade ou evolução. Infelizmente, poucos meses depois a cidade sofreu com a chuva, e como conseqüência, aqueles problemas com as pontes, sem contar a calçada da Rua Treze. A minha prioridade é homenagear os veteranos socorrenses com o monumento, deixando a cargo o design de acordo com o arquiteto e orçamento disponível. Ao final das minhas pesquisas, tive a oportunidade de ter uma reunião com a Prefeita Marisa. Fui bem recebido e ganhei total apoio.
            A partir daí, fui encaminhado para o Arquiteto Guilherme Salles e fui visitá-lo em sua residência e apresentei o projeto. Ele aceitou fazer parte, mas nunca mais consegui entrar em contato direto para saber sobre a evolução da situação e elaboração de um orçamento. Infelizmente não sei o estágio da primeira fase do meu projeto. 

            Blog: Sabemos que grandes enchentes atingiram Socorro nas décadas de 70/80, eliminando grandes recursos de pesquisas que guardavam nossa história. Como foi o trabalho de pesquisa e quais foram suas fontes?           
           
Derek: Infelizmente vários documentos e jornais se perderam com as águas das enchentes. Os veteranos de Socorro são numericamente poucos, já faleceram, eram humildes e deixaram pouca informação registrada.         
            A minha pesquisa foi basicamente bibliográfica, documental e parcialmente oral. No último caso, as viúvas e parentes próximos forneceram dados básicos sobre os veteranos: filiação, cidade natal, profissão, etc. As biografias foram complementadas com poucos documentos ainda existentes.     
            Entrei em contato com o antigo Regimento Ipiranga (sede do glorioso 6º Regimento de Infantaria da Força Expedicionária). Forneci documentos necessários para ter acesso a informações mais detalhadas sobre os veteranos, esperei por 5 meses e não recebi nenhuma resposta. Fechei o livro com o que eu tinha. 
            O primeiro capítulo consiste basicamente em uma pesquisa bibliográfica sobre a Diplomacia de Brasil e Alemanha na década de 1930, razões da Segunda Guerra Mundial, Formação da Força Expedicionária Brasileira, Processo de Mobilização, Seleção da Tropa, entre outros dados.

Capa do Livro de Derek
            Blog: Como está dividido o livro e quais pontos são abordados de modo geral?
           
Derek: O livro está divido em dois capítulos. O primeiro capítulo aborda basicamente as razões da Segunda Guerra Mundial e a importância do Brasil no cenário Mundial. O Segundo capitulo fala basicamente sobre os heróis socorrenses com dados biográficos e diversas fotos.       
            Tive a oportunidade de entrevistar o veterano Oswaldo Saragiotto de Serra Negra/SP, ele era Companheiro do veterano socorrense Thomas Marcelino Borim na Companhia de Petrechos Pesados (CPP1). Lá o leitor terá a oportunidade de saber sobre a amizade dos dois veteranos que se estendeu após a guerra, além de saber um pouco sobre o processo de preparação do soldado brasileiro ainda em nosso país e as grandes dificuldades de uma guerra moderna na Europa. Encerrando o capítulo, abordo um pouco sobre a cobertura da mídia local no pós-guerra e sobre os nazistas e colaboradores na região do Circuito das Águas, principalmente sobre Josef Mengele e Ghunter Von Schoupeé que viveram em Serra Negra/SP. Resolvi fazer uma pequena ligação sobre o último assunto, pois nossos heróis derrubaram o nazi-fascismo na Europa e, após a guerra, o nosso país recebeu cientistas e engenheiros de passado tenebroso.

            Blog: Quase um mês após o lançamento qual foi à repercussão do livro e qual o sentimento em relação ao trabalho realizado?    
            Derek: Estou satisfeito com o meu trabalho, pois consegui alguns aliados. Afinal, a função social do historiador é tentar responder algumas questões e criar um laço de identidade entre os membros de um povo/nação. A mídia local ajudou a divulgar o meu livro sobre a importância de promover a nossa participação na Segunda Guerra Mundial. Algumas escolas adotaram a iniciativa e estão elaborando trabalhos sobre o assunto com os seus alunos. Inclusive, estudantes e admiradores da FEB também compraram o meu livro, alguns dos Estados do Paraná, Rio de Janeiro, Brasília, Alagoas, Rio Grande do Norte e Pará. 

            Blog: Para finalizar: Várias civilizações vivem um conflito quando o assunto é reconhecer e homenagear seus heróis. A Câmara Municipal já aprovou em 1ª votação o dia 8 de maio como Dia da Vitória da Segunda Guerra Mundial, sob influência direta de seu trabalho. Neste 8 de maio de 2011, qual a importância desta data, e de seu trabalho, e o que Socorro pode se orgulhar de comemorar?    
            Derek: O caso de Socorro não é isolado. Os veteranos sofreram com o abandono em todo o território. Os ex-combatentes passaram a ganhar um pouco mais de espaço com o fim da Ditadura Militar e processo de redemocratização. Porém, infelizmente, poucos veículos de comunicação dedicam espaço sobre o assunto. O veterano Thomas Borim recebia as homenagens do Dia da Vitória em Serra Negra/SP e Amparo/SP. O socorrense deve se orgulhar, pois além da vitória no campo de batalha Europeu, a primeira conseqüência do retorno da FEB no Brasil foi a queda da Ditadura Varguista, e nossa cidade colaborou com o esforço de guerra na Europa e redemocratização do país.        
            A aprovação do 8 de Maio no calendário oficial da cidade com certeza é uma grande vitória, especialmente pela votação ter sido realizada menos de 1 mês após o lançamento do meu livro. Apesar do tema ser bem complexo e de grande importância para o cenário mundial, o meu livro não é nenhuma tese de Doutorado. Resolvi elaborar o livro com vocabulário fácil e preço acessível, pois todos podem adquirir e saber um pouco mais sobre o período proposto.

            Blog: Algo mais a acrescentar?         
           
Derek: Quero agradecer ao Blog pela oportunidade de divulgar o livro.    
        Infelizmente é comum o brasileiro ter na cabeça um jogador de futebol como Herói. Porém, os atletas ganham salários altos, dirigem os melhores carros e se hospedam em hotéis de luxo. A maior prova de cidadania é servir o Exército em período de guerra. Os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira lutaram contra um inimigo experiente, enfrentaram o rigoroso inverno da Europa, libertaram dezenas de vilas e respeitaram os prisioneiros de guerra. Retornaram ao país sem auxílio e instrução para o convívio social. O mínimo que devemos fazer é reconhecer os verdadeiros heróis da Pátria. 

            Nota do Blogueiro: Acompanhando a trajetória do trabalho desenvolvido pelo nosso companheiro historiador Derek Destito Vertino concluímos, em com alegria, que mesmo em um tempo no qual a memória não é importante e o reconhecimento menos ainda temos pessoas comprometidas com cultura de seu povo. O livro “Da Glória ao Esquecimento: Os socorrenses na segunda guerra – Resgatando a memória da cidade” não é apenas um mártir para a memória de nossos “pracinhas”, mas sim um verdadeiro resgate para a memória da cidade. No mais, temos que parabenizar o autor e agradecê-lo pela obra deixada.

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