terça-feira, 27 de setembro de 2011

Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço

Por Henrique Cézar
O Congresso Brasileiro de Turismo Acessível que se inicia amanhã em Socorro trouxe mais uma vez para o cenário de debates a real vocação turística da cidade e toda a infraestrutura ao seu entorno. Se por um lado já demonstrou eficiência por meio da iniciativa privada, por outro ainda apresenta sérios problemas de amadorismo organizacional.    

Iniciado em 2006, o projeto Socorro Acessível ganhou apoio do Ministério do Turismo e recebeu a missão de fazer da cidade o primeiro destino turístico acessível do Brasil. Para o sucesso da ideia, além de parcerias com entidades turísticas e ligadas a defesa dos interesses de pessoas portadoras de deficiência, Socorro contou com investimentos superiores a R$ 1,73 milhão em obras de infraestrutura turística e adaptações em passeios, equipamentos e edificações públicas, entre outras medidas.
 
Contudo, a identidade de modelo em acessibilidade a Socorro ainda é discussão. O próprio presidente da Câmara Municipal e um dos idealizadores do Projeto Socorro Acessível, Luciano Taniguchi, disse em palestra a jovens estudantes em certa oportunidade que Socorro não é e nunca será acessível, explicando que o modelo socorrense se aplicaria apenas ao roteiro turístico e não a toda a cidade. Mesmo assim, a cidade e pessoas ganharam grande notoriedade com a imagem, justa ou não, de uma cidade acessível, o que não é verdade. 
 
A julgar por sua geografia e por sua formação, é realmente difícil acreditar que Socorro poderia se tornar completamente, ou parcialmente, acessível. Ruas estreitas, calçadas irregulares, falta de pisos especiais e até ausência de rampas não são favoráveis ao título. Entretanto, ao invés de transformar o projeto Socorro Acessível em um amplo instrumento para beneficiar toda a estrutura comercial da cidade, a ideia parece privilegiar setores, ou melhor, excluir alguns.  
         
Coincidentemente, com a realização do Congresso, Socorro passou nos últimos dias por uma maquiagem, com a pintura de faixas, adequação de jardins, limpezas de praças e outros preparativos. Porém, tal atitude não foi capaz de esconder os problemas enfrentados, por exemplo, em pleno centro comercial da cidade, com uma obra durando mais de um ano, sem prazo para terminar e causando diversos prejuízos.        
   
Também nesse contexto, mesmo partindo do princípio que o projeto Socorro Acessível se aplica exclusivamente ao turismo, é inadmissível a acessibilidade do centro socorrense, não só pela interminável Rua Treze de Maio, mas também por suas condições que não permitem a tão importante acessibilidade. Esse princípio se aplica se entendermos que seria lucrativo para a cidade se o turista portador de deficiência viesse para a cidade, praticasse seus esportes de aventura em áreas específicas e pudesse conhecer e usufruir do centro local, forte e com investimentos, beneficiando o comércio e proporcionando uma maior mobilidade da economia socorrese, que já há algum tempo vem demonstrando-se insuficiente apenas com o turismo.     

O projeto Socorro Acessível é sim notável e deve ser apoiado e ampliado para demais localidades. O que devemos ter em mente é que precisamos de uma administração pública que saiba olhar para o todo. Mesmo parecendo insignificante para alguns, é inadmissível que seja necessário um Congresso de abrangência nacional para um empenho maior na manutenção de uma cidade agradável. É necessário repensar se nossa vocação é turística. Se positivo, que se crie um sistema englobando formação e desenvolvimento, explorando ao máximo um setor de potencial já comprovado. Ao contrário, não podemos continuar nos esquecendo dos problemas da cidade e vendendo uma imagem de que somos modelo naquilo que não somos.

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