quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O fracasso político de Marina Silva

Por Henrique Cézar

Reportagem da revista IstoÉ da última semana deixou em evidência o dilema político vivido pela presidenciável Marina Silva, que luta contra o tempo para registrar seu novo partido, o REDE Sustentabilidade, para disputar as eleições de 2014. Na própria reportagem, Marina é retratada como “boa de voto, ruim de política” e, de fato, é o que parece acontecer com a ex-senadora e ex-ministra do meio ambiente.
Militante histórica do Partido dos Trabalhadores, Marina Silva assumiu o Ministério do Meio Ambiente no início do governo Lula. Após desentendimentos, deixou o cargo em 2008 para reassumir sua vaga de senadora pelo Acre. Com relações desgastadas dentro do partido, deixou a legenda em 2009 para alcançar voos mais altos e mudou-se para o Partido Verde, sendo a grande surpresa das eleições presidenciais de 2010, quando obteve quase 20 milhões de votos e conquistou o terceiro lugar na disputa, garantindo o segundo turno entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB).
Entretanto, ao invés de aproveitar o surpreendente resultado das urnas e construir uma base consistente dentro do PV, Marina, assim como no PT, se desentendeu com os líderes do partido e logo em 2011 deixou a agremiação com o objetivo de criar um novo partido.
No registro recente da criação de partidos no Brasil, o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em habilidosa articulação, conseguiu em pouco tempo viabilizar o PSD, se valendo de fartas manobras políticas. Já Marina, como seu histórico mostra, ao sair brigada com os dois partidos pelos quais passou, não conseguiu as articulações necessárias e corre sérios riscos de não conseguir a tempo o registro da REDE para a disputa eleitoral. O prazo máximo para partidos conquistarem o registro legal do Tribunal Superior Eleitoral é cinco de outubro, um ano antes das eleições de 2014, mesmo prazo para que políticos estejam devidamente filiados aos partidos pelos quais irão disputar os pleitos. Acontece que até meados deste mês de agosto, apenas duzentas mil assinaturas, das cerca de quinhentas mil necessárias para se criar um novo partido, haviam sido validadas pelos Tribunais Regionais Eleitorais.
Após a validação das assinaturas é que o partido entrará com o pedido de registro, que considerando as solicitações de impugnação entre outros pode levar até 50 dias, ultrapassando o prazo de 05 de outubro, o que deixaria a Rede de fora da eleições de 2014 e Marina sem partido.
Há quem acredite, porém, que mesmo se a Rede não se legalizar a tempo, Marina Silva deverá participar das eleições do ano que vem. Ao menos legendas não faltam. O recém criado PEN (Partido Ecológico Nacional), com plataforma semelhante ao REDE, deverá oficializar o convite à Marina para ser a candidata do partido ao planalto. PPS e PDT também estariam trabalhando nos bastidores para despertar o interesse da presidenciável.
Se no campo político Marina é um fracasso, na esfera pública pode ser considerada uma grande dúvida. Segundo lugar nas pesquisas para a Presidência da República, Marina atrai o eleitorado jovem, o feminino, o religioso e o formador de opinião, que enxergam em Silva a mudança necessária na política. Entretanto, se analisadas as plataformas da REDE, percebe-se que o projeto de Marina não passa de algo tão conservador quanto os já existentes, condenando o casamento de pessoas do mesmo sexo e se esquivando de discussões como a do aborto e a da descriminalização das drogas.
Além disso, se Marina utilizar toda sua “habilidade” política para articular um possível governo seu com o congresso teremos a única certeza de um caos ainda maior do que o sofrido pelo atual governo. Vale lembrar que Marina tem forte proximidade com grandes empresários, o que reforça o projeto conservador também no espectro econômico, sem contar que após desafetos com os petistas, se aproximou de vários tucanos, como Walter Feldman e Ricardo Trípoli, mostrando que a REDE pode ser na verdade um PSD maquiado, porém sem a mesma habilidade de Kassab, com avanços na plataforma ambiental, mas tradicional e conservador no resto.

Mesmo afirmando em entrevistas que caso a REDE não se legalize a tempo pode ficar de fora da disputa, é difícil acreditar que Marina, com 20 milhões de votos, não entre na briga nas próximas eleições. Sem a nova embalagem da REDE, contudo, pode ser mais fácil perceber que Marina Silva não é a mudança que as ruas tanto procuram.

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