Por
Henrique Cézar
Reportagem da
revista IstoÉ da última semana deixou em evidência o dilema político vivido
pela presidenciável Marina Silva, que luta contra o tempo para registrar seu
novo partido, o REDE Sustentabilidade, para disputar as eleições de 2014. Na
própria reportagem, Marina é retratada como “boa de voto, ruim de política” e,
de fato, é o que parece acontecer com a ex-senadora e ex-ministra do meio
ambiente.
Militante
histórica do Partido dos Trabalhadores, Marina Silva assumiu o Ministério do
Meio Ambiente no início do governo Lula. Após desentendimentos, deixou o cargo
em 2008 para reassumir sua vaga de senadora pelo Acre. Com relações desgastadas
dentro do partido, deixou a legenda em 2009 para alcançar voos mais altos e
mudou-se para o Partido Verde, sendo a grande surpresa das eleições presidenciais
de 2010, quando obteve quase 20 milhões de votos e conquistou o terceiro lugar
na disputa, garantindo o segundo turno entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra
(PSDB).
Entretanto, ao
invés de aproveitar o surpreendente resultado das urnas e construir uma base
consistente dentro do PV, Marina, assim como no PT, se desentendeu com os líderes
do partido e logo em 2011 deixou a agremiação com o objetivo de criar um novo
partido.
No registro
recente da criação de partidos no Brasil, o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto
Kassab, em habilidosa articulação, conseguiu em pouco tempo viabilizar o PSD,
se valendo de fartas manobras políticas. Já Marina, como seu histórico mostra,
ao sair brigada com os dois partidos pelos quais passou, não conseguiu as
articulações necessárias e corre sérios riscos de não conseguir a tempo o
registro da REDE para a disputa eleitoral. O prazo máximo para partidos
conquistarem o registro legal do Tribunal Superior Eleitoral é cinco de
outubro, um ano antes das eleições de 2014, mesmo prazo para que políticos
estejam devidamente filiados aos partidos pelos quais irão disputar os pleitos.
Acontece que até meados deste mês de agosto, apenas duzentas mil assinaturas,
das cerca de quinhentas mil necessárias para se criar um novo partido, haviam
sido validadas pelos Tribunais Regionais Eleitorais.
Após a validação
das assinaturas é que o partido entrará com o pedido de registro, que
considerando as solicitações de impugnação entre outros pode levar até 50 dias,
ultrapassando o prazo de 05 de outubro, o que deixaria a Rede de fora da
eleições de 2014 e Marina sem partido.
Há quem
acredite, porém, que mesmo se a Rede não se legalizar a tempo, Marina Silva
deverá participar das eleições do ano que vem. Ao menos legendas não faltam. O
recém criado PEN (Partido Ecológico Nacional), com plataforma semelhante ao
REDE, deverá oficializar o convite à Marina para ser a candidata do partido ao
planalto. PPS e PDT também estariam trabalhando nos bastidores para despertar o
interesse da presidenciável.
Se no campo
político Marina é um fracasso, na esfera pública pode ser considerada uma grande
dúvida. Segundo lugar nas pesquisas para a Presidência da República, Marina
atrai o eleitorado jovem, o feminino, o religioso e o formador de opinião, que
enxergam em Silva a mudança necessária na política. Entretanto, se analisadas
as plataformas da REDE, percebe-se que o projeto de Marina não passa de algo
tão conservador quanto os já existentes, condenando o casamento de pessoas do
mesmo sexo e se esquivando de discussões como a do aborto e a da descriminalização
das drogas.
Além disso, se
Marina utilizar toda sua “habilidade” política para articular um possível
governo seu com o congresso teremos a única certeza de um caos ainda maior do que
o sofrido pelo atual governo. Vale lembrar que Marina tem forte proximidade com
grandes empresários, o que reforça o projeto conservador também no espectro
econômico, sem contar que após desafetos com os petistas, se aproximou de
vários tucanos, como Walter Feldman e Ricardo Trípoli, mostrando que a REDE pode
ser na verdade um PSD maquiado, porém sem a mesma habilidade de Kassab, com
avanços na plataforma ambiental, mas tradicional e conservador no resto.
Mesmo afirmando
em entrevistas que caso a REDE não se legalize a tempo pode ficar de fora da
disputa, é difícil acreditar que Marina, com 20 milhões de votos, não entre na
briga nas próximas eleições. Sem a nova embalagem da REDE, contudo, pode ser
mais fácil perceber que Marina Silva não é a mudança que as ruas tanto
procuram.

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